sexta-feira, 16 de outubro de 2009

imperfeições ou como dizer até logo

Estou aqui, escrevendo para você no meu quarto novo, que abriga tantas lembranças que jamais saberemos, como se um dia aprisionasse também as nossas. E lá se vão cinco ou dez anos, que diferença faz? É bom estar aqui. Com esta gente nova. Sinto-me protegido, coisa estranha. Carine está tão bonita. E batchan, que tem uma idade já misteriosa, ainda não parece quase me desconhecer. Não consigo mais dormir, penso em todo mundo e tudo que está para acontecer. Estou te escrevendo porque estou quase conseguindo tirar você da cabeça. E não sei se já estou preparado para esquecer você. Antes disso, quero te contar umas coisas. Mesmo que a gente não se veja mais.

Desculpe por tudo, fui hostil enfim. Não com você, mas comigo mesmo. Teria te telefonado e você acabaria escutando, chorando e desligando na minha cara. Desagradável isso, deveras inconveniente. Não é nada contigo. Ou quase nada. O fato é que estamos morrendo e todas as noites eu visito o inferno para ver se ainda há lugar para nós. Não tenho mais paciência para os medos humanos, essa coisa travada, rejeição forçada, jogos de poder. Difícil explicar. Muitos cacos de vidro dentro das pessoas. Vejo farpas em sua garganta. Uma pressa, uma urgência para tudo e uma obsessão de arruinar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Morrer antes de nascer. Sim, continuo mentindo para mim mesmo, a vida é mais fácil assim. Sem loucuras, sem sofrimentos, como uma história que já vem pronta e pessoas que vão substituindo as antigas. Para evitar o tédio, esporadicamente tenho o cuidado de ferir a mim mesmo, sem nunca saber se estou ferindo também outra pessoa. Sinceramente, não queria ter feito mal a você. Não queria que você chorasse. A mentira tem essa desvantagem, nem sempre dá pra controlá-la.

Escrevo-te com um cigarro aceso e um copo de coca-cola. E você ainda não me conhece, estou tentando, por absoluta necessidade, inventar você. Talvez eu continue sem dormir depois disso, mas ainda há esperança. Nesta doentia tentativa de enfrentar a realidade, finjo que não fantasio. Mas fantasio. Até o último momento esperei que você me telefonasse. Que você tocasse a campainha. E assistisse comigo um filme antigo e dublado que passa de madrugada na globo. Falando assim, até parece ridículo. Mas até então, pelo contrário, é demasiado lindo e nostálgico. Infelizmente não me permiti, não te permiti, não nos permiti. A gravidade foi mais forte e não houve como fugir disso tudo, tão artificial, tão estudado. Assim é a vida, quem acaba sendo o personagem fictício sou eu. Sou péssimo ator, detesto ouvir minha voz dizendo aquilo que todos querem escutar, ou ver os tantos outros atores interagindo comigo. A calma, o equilíbrio, as palavras ditas lentamente, como se eu escolhesse. Raramente ocorre um gesto, um tom mais espontâneo. São tão bons atores que ninguém percebe minha péssima atuação.

Tudo bem, já passou. E quando eu digo tudo isso não estou subestimando você. Não sinto agressividade nenhuma em minhas palavras. Gosto de seus olhos, gosto da tua pessoa e sei que é difícil entender todas estas emoções contraditórias e confusas que habitam sua mente. Entenda que eu não obriguei ninguém a ler isso aqui, a internet é realmente fascinante, antes dela ninguém perdia tempo para ler algo que não quisesse ler. Hoje as pessoas vêm aqui ler coisas que sabem que não querem ler só pra encher o meu precioso saco. Acontece que eventualmente há uma necessidade indecifrável e neurótica de elaborar sofrimentos e rejeições e amarguras e pequenos melodramas cotidianos para depois sentar atormentado e solitário para escrever uma merda destas. Questiono-me até hoje sobre o real motivo disso mas nunca sei responder. Não sou isso que escrevo. Talvez eu até seja, quando me sinto estranho. Não sei viver ao vivo, só sei viver através de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O não-real, o não-palpável. Só não acho bonito que todos se dispersem assim, encontros, desencontros e nunca mais, tudo muito contemporâneo. Estou tentando ser honesto hoje. Uma possibilidade que eu precisava devorar ou destruir. Porque até hoje não consegui conquistar essa disciplina, essa hermenêutica dos sentimentos, essa frugalidade das emoções.

Estou apaixonado. Há tempos não ficava. Muito menos por uma namorada. O que tem me mantido vivo até hoje foi a ilusão ou a esperança dessa coisa, esta harmonia com outrem, o amor verdadeiro um dia. E de repente isso acontece, indubitavelmente, de uma vez por todas. Então a grande procura morre, destroçada, proibida, impedida e eu nem vivi nada ainda. Não que eu seja promíscuo, mas o romantismo é necessário e só é possível com a libido. Da minha sexualidade, dos filhos mortos, não ficou nada. Será que o amor é tão grave assim? Eu só não quero me tornar uma pessoa pesada, frustrada, amarga. Eu podia dizer que eu tive sorte na vida. Eu podia dizer que você teve azar. Eu podia contar a você dos meus últimos meses, escrevendo durante toda a madrugada, falando com quase ninguém. Pelo menos, contigo. Tudo isso, se eu te dissesse, talvez tivesse ajudado a doer menos em você. Mas eu não quero ter vergonha de nada que eu seja capaz de fazer você sentir. Tento não ficar assustado com a idéia que este tempo aqui é curto, e enfrento, e reconstituo os pedaços, tudo vai se ajeitando. Menos a morte. E de tudo isso, me ficaram coisas tão bonitas. Uma lembrança bonita de ti, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e ser novo de novo. Quando te falo da idade, quando te falo do tempo, quero dizer que não tivemos tempo e não quero mais suas emoções aprisionadas e os meus impulsos bloqueados. Neste sentido, somos espantosamente parecidos. Acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim - para não querer de maneira alguma ficar na sua memória, no seu coração, seu corpo, como uma sombra escura. Perdoe a minha precariedade e as minhas tentativas inábeis, desajeitadas, de te abraçar no escuro. Me queira bem. Estou te querendo muito bem neste breve instante. Tinha vontade que você estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas coisas, grandes, pequenas, e sem nenhuma importância.

Fique feliz e, sobretudo, queira ser feliz. Você é muito linda e eu tento te inventar com minhas melhores referências. Mesmo que eu não consiga, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você e para mim. Escrevo-te, enfim, apenas porque nem você nem eu somos descartáveis. Com cuidado, com grande carinho, um forte abraço e um delicado beijo. Quanto aos outros, mais um amanhã cinza de outubro.

quando não mais

Pintaram os telhados. Continuaram pintando. Nós continuávamos resistindo mas às vezes penso que viver não deve ser apenas isso, pintar o telhado. Continuamos carregando nossas pequenas maldições – mais orgasmos, insônia, pesadelos, excessos de drogas e cigarros, procura cega, amores ilusórios e passageiros. O mundo continua apodrecendo, os amigos vão para o bar, para a clínica ou para a prisão, viciaram-se nos hábitos mais diversos. Em nome de que resistimos? De onde tiramos essa energia, que é meio talvez uma falta de energia por não termos conseguido sair do lugar e mudar alguém ou a nós próprios, ou enlouquecer e fugir para fora do país. Normalmente resistimos enquanto o coração resseca, os olhos endurecem, as deliberações se frustram. Desmascaramos a farsa para continuarmos a existir no meio dela. De que nos tem servido essa lucidez senão para pintar um telhado cada vez mais pesado? Buscamos a paz, a divina indiferença. Pra termos sede de amor e de beleza. Com ou sem nova convivência, somos profundamente infelizes. Nosso saldo é o desencanto. E você, onde andará?

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

inevitável dilema

A nicotina é uma linda órfã de olhos verdes que foi expulsa de casa ainda virgem. Como qualquer outra pessoa que eu conheço, ela não é minha. Ela não é de ninguém. Ela é do mundo, talvez. Ela é de si mesma. E sabe curar a enxaqueca como ninguém. A nicotina me acalma tanto que eu nem me reconheço. Não que eu queira me reconhecer. Não que eu queira saber o que vai acontecer quando ela for embora. Ou eu. Não penso nisso. Pensar nisso me aperta o peito e os olhos ardem e não, não posso. Ela me consome para isso não acontecer. Mesmo que eu saiba que vai acontecer - todos sabem. Mas aí ela vem e suas fumaças são tragadas uma a uma e agora eu estou aqui, nu e sem nada pra me cobrir. E ela sabe disso. Ela sabe porque eu digo. E ela faz de tudo para me calar em nome da minha dignidade. Mas isso vai acabar. E eu não sei o que vou fazer com todas essas dores no peito. Queria que se apagassem como um cigarro e que tudo voltasse a ser como antes. Embora não haja um antes ou depois. Não quero que ela seja mais um fantasma. Não quero ter aquele mesmo fim. Ela é melhor do que todas as outras. Não quero mais consumir ninguém pra dizer que valeu a pena porque a nicotina é maior e eterna e a vida acaba mesmo. Eu também quero vida e eu quero paz e eu acho que agora pra ter isso eu preciso dela. Porque ela é inevitável.

Como parar de fumar? Sente-se com as pernas cruzadas. Relaxe. Feche os olhos. Inspire. Segure o ar. Expire. Repita cinco vezes, em voz baixa: nicotina faz mal, eu não preciso dela. Imagine lugares amplos. Praias. Montanhas. Conte até dez, pausadamente. Depois, pelo amor de deus, acenda um cigarro.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

olhos cortados

Ferida aberta debaixo do chuveiro. O silêncio é o ritmo louco do futuro assassinado entre as varreduras de feixes de elétrons esteticamente pós-modernas, cults ou pessimistas, abençoadas sejam todas as que a ti pertencem. Observo desespectadora, penso o que não pensam, deliro o meu não-grito, rodo purpurinas resgatadas pelo vôo óbvio dos suspiros que a quase morte já me concedeu. Eu a reverencio, meu anjo de asas cortadas. Durma bem, e me sonhe nesta vida sem tempo, onde o sangue jorra como se fosse uma sinfonia. Veio a caminho de mim, emaranhando os desvios e as promessas e as últimas esperanças de quem nunca se soube e segue sendo qualquer mistério. Bolhas explodem pelos poros, sopros de falsidade na mesa de jantar, a janela despencando no meu próximo passo. Tudo longe, (lá onde não quero), e eu aqui, neste quarto ultrapassado, nesta tela que borra o meu olhar todo íntimo, confusão de luzes brancas que refletem os meus efêmeros. Não melancólica, desejem-me antes o melhor, que eu lhes prometo o afeto supremo: o que some, volta, esgarça, até que se possa consumir uma vida crua. Dois sorrisos e um reencontro bastam para que se dure uma vida em um dia inteiro.

genealogia da ausência

E a vida continua como uma câmera lenta pelo tempo que ainda consegue sustentar o romance. O te amo mais sincero que eu já disse, aquele que não espera nada em troca, que sabe ser tão puro que não precisa de mais nada, apenas não ter sido sincero um dia. É a bondade do gosto, a reticência da paixão. Portanto, ela continuará chorando. Sairá como antigamente, observará muitos rostos, tomará alguma coisa e voltará para casa. Então vou segurá-la firme com as duas mãos, ela vai chorar um pouco mais sem conseguir disfarçar, molharei seus ventres com minha água e, quando sua cabeça estiver parada entre minhas duas mãos, olharei seus olhos por dois segundos e ela verá o céu. Novamente ele. Poderia lavar pratos, ser um grande homem, ser um pequeno, dizer mais sobre ela, falar da frieza da vida, mas não, ela me visita com hora marcada. O que eu poderia fazer? Estava. Era olhar e conversar e morrer de poeira entre as dobras. Ela arrumando a casa, gostando de andar. Casada ou solteira em Curitiba, fazendo filhos com outros sem jamais parir, com o seu jeito, a cara redonda, os olhos, o choro, as coisas se encaixando no tabuleiro. Mas o tabuleiro virou. Seu apartamento é bacana, e sua mãe, como vai? Enrolava-me. Eu queria ter registrado o momento. Estava parado diante da flor mais dolorosa e o veneno de sempre que vinha do caule, olhando fixamente pro fim da minha infância, meus sentidos sobrando no rosto, chuva torrencial lá fora. Não conseguia parar de falar. Preciso de ar. Mas um novo tipo de ar. Um filete de sangue escorre pelo meu nariz. Ela não pode ver sangue que logo transforma em hemorragia. Já não sei mais dizer o que eu quero, sei de todo mal que está em mim e sei de todo mal que posso encontrar nos outros, mas não sei o que há além disso. Mas sei também que sinto um golpe me subindo pela memória, uma espera forçada pelo retorno que jamais retorna como outrora. Sei que a música era lenta e exagerávamos no falso romantismo, sei que você estava cansada, sei que precisava te mostrar uma carta, mas não, já erramos noutros tempos, não podemos errar mais. Claro que não. Por isso devemos. Não. Espera eu voltar da Espanha. E meu vício prevalece sob a chuva estando você tão longe e tão enigmática pra mim.

e o que eu poderia dizer?

Que minha vida está uma merda? Não, eu nunca estive melhor. Que mantenho os braços cruzados esperando o tempo com suas respostas? Não... não sei se é porque eu acabei de acordar, não sei se é porque as noites têm sido dias, mas meus dias não têm se revelado muito noites, queimam nas bordas. Não sei se a ansiedade das apropriações do inapropriado é que me deixa desamparada, mas uma vida sem te ver se encaixa perfeitamente com a concepção do que é a vida, algumas noites longas de saudade, alguns dias curtos de afeto, outros muitos de dor sem que haja solução pra isso. Solução pra quê? Estudar, começar de novo, errar tudo outra vez, viajar por uma bobagem e não que eu não me apegue a nada, o que acontece é que acho muito caro o preço para um espírito demasiado aristocrático a lidar com olhos abertos diante da própria pobreza já que o apego também é caro. Por sorte ou azar, me apego de graça. E me custa muito ser apegada a quase tudo, ou quase nada, gostaria de estar próxima do que mantém as coisas vivas e de pé. Saber que fui uma adolescente louca com um dedo furioso apontado pra minha cara e uma risada quando falo que ainda posso ser alguém, e que estou viva, ou mesmo morta que seja, mas a espera de coisas vivas, que fazem o meu fim de tarde menos escuro.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Fim

Não me despeço em um cortejo fúnebre porque acredito na imortalidade da alma.
Não sou a verdade, porem não sou a mentira. Não sou o ácido corrosivo que fere seus ouvidos e corta seu coração. Não sou eu, muito menos minhas palavras o reflexo do teu espelho. Sou apenas o que sou. Eu sou o Eu sou. Doa a mim ou a quem for. Em minha luta sempre estarei tentando ser uma rainha com um sorriso louco.

descarga para dejeto-homem

Sai da minha frente, porque será você meu saco de pancadas. Teus amigos eu eliminarei com um spray de barata, porque para mim gente assim merece ser exterminada. Mas onde estão meus valores cristãos, meu senso de justiça, minha compaixão por aqueles que não sabem o que fazem? Meia noite e quarenta e sete marca agora meu relógio e só consigo pensar que você é a pessoa mais retardada da face da Terra. Quer chamar atenção? Enfia uma cenoura no teu cu e sai correndo pelado pela rua. E antes que me pergunte, você que sempre me pergunta, este texto não é para você. Madre mia! Cada filho um dejeto, um excremento com moscas pousando sobre. Sua história de vida uma desgraça inflamada por verdades, fantasias e injustiças. Pois, que pena que não sinto pena, só sinto raiva. Cada um é dono do seu destino, penso eu. E se teu destino foi viver numa desgraça o problema é todo seu. O que queres é manipular alguém, causar piedade, ou apenas fazer papel de ridículo por sua mentalidade ser comparável à de uma criança de 6 anos. Eu já sei é o demônio que habita você. Então você sente remorso, se encolhe na cama, depois de ter acordado com ressaca, porque na sua vida o que importa é beber com os "amigos" e fica gritando baixinho a culpa é todas de vocês. Não! Não é imbecil! Ouse dizer e você será merecedor de uma descarga.

domingo, 9 de agosto de 2009

possibilidades de um ser anônimo

Sendo você um garoto apaixonado e inexperiente e sendo eu um homem frio e calejado lhe despejo a seguinte pergunta: o que podes querer de mim que não seja a tirania do desgosto? Sendo eu um homem cínico e amargurado e sendo você um ser anônimo triste e desocupado eu lhe despejo a seguinte resposta: nada do que eu posso querer se compara ao que você possa encontrar. Dizes então que o meu poder de conhecê-lo mais do que deveria envolve o mundo nessa tragédia que você significou? Queres o poder e eu sou simplesmente a energia desse poder. Desculpe, mas você me entedia com essas filosofisses levianas. Vá tomá no cu. Aí é que você se engana, quem vai tomar no cu é você e todo o resto que insiste em recorrer ao ânus. Vai e vem. O quê? “Não te metas na vida alheia se não queres lá ficar”. Mas eu sou a vida alheia. Você não pode comer todas as mulheres que você quer, pois eu digo que não. Mas eu posso. Você pode me desafiar, mas não a tua família e os teus amigos e a tua namorada. Eles não iriam gostar nem um pouco. Você é o riso do demônio. Sim, minha criança. Durma no meu colo que tudo vai ficar melhor. Quem é você de verdade? Uma figura pública. Como assim? Um sem-vergonha. Você se ama? Claro, eu quero povoar a internet, eu quero ser um fantasma que assombra todos os blogs e o orkut sem pudor. Eu quero ser todos e todos agora são figuras públicas na internet. Você se acha um voyeur? Claro que não, a internet é uma conversa íntima global que não tem nada de proibido, que não tem mais nada a ver com invasão de privacidade. Eu não tenho mais perguntas. Desculpa-me. Não.

das minhas entranhas ao seu sadismo

Eis que hoje me pergunto de onde vem tudo aquilo que eu sinto, incluindo admiração, amor, ódio, nojo, compaixão, pena e indiferença. Escuto cada barulhinho ínfimo que brota de longe e que corta feito agulhada meus tímpanos e também me pergunto, por que sou capaz de ouvi-los? Não estamos felizes com o que possuímos e se estamos é apenas questão de tempo para mudarmos de opinião, porque como sempre eu digo o tempo é sempre muito generoso com a gente. A gente... eu e todas essas pessoas que vivem dentro de mim... Todas elas falando e pensando, entrando e saindo todas ao mesmo tempo. Carrego o peso de levá-las junto de mim para onde eu vou. Carrego o fardo de levá-las onde quer que elas queiram. Carrego a história e a vida de outras pessoas, daquelas que não podem viver dentro de mim, mas mesmo assim vivem. Carregarei para sempre cada partícula de vida de todos os olhares que eu cruzar. E quando não mais houver espaço eu direi: Inventemos uma história apenas por dia, para ficar menos feio. Bem menos.

impropriedade especulada

Minto para dizer a verdade, digo a verdade para parecer mentira. Há também aqueles que dizem que o Passeio Público seria o meu inconsciente e o apartamento, minha consciência. Renunciaram ao incesto, recusaram a velha perversidade polimorfa e aceitaram a genitalidade predatória de nossos dias. Conhece-te pelos olhos alheios, pois a ti mesmo jamais será revelado. Assim saberás que aquilo que calas é o que te define. Contudo, por se tratar de seres humanos do século XX, que vivem as incertezas geradas pelo crescente excesso de informações, eis aqui um personagem que, assim como há tanto tempo Albert Camus nos revelou, não encontra respostas para suas interrogações individuais, perante um mundo em silêncio absoluto. Resignou-se à monogamia e subjugou seus impulsos agressivos. Fiodóro, o celestial mestre civilizador, o domesticou e lhe conferiu identidade narcísica grupal. No entanto, após este exaustivo aprendizado de refinamento, descobriu-se repudiado pela valorização de outros padrões estéticos e sinais exteriores de luxo singular. Não queria ser mais um de seus próprios problemas. Não queria ser quem criara o seu próprio dilema. Corria o suficiente para não precisar mais olhar para trás. Queria ver a todos findar, mas não enxergava mais ninguém no outro lado da rua. E quando finalmente conseguia se lembrar de quem fora um dia, fui eu quem não mais lembrava. Estaria aqui, então, a minha crise existencial, pois através deste absurdo, não há a possibilidade de revoltar-me contra o mundo, já que ao mesmo tempo que fui tomando conhecimento da realidade, percebi que foi absorvido pela mesma. Ainda bem que não deixei no caminho minha inequívoca natureza predatória, egoísta e avessa ao trabalho. Ainda bem.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Mucosa nasal

Eu pensei muito além de dizer o que não dizia, dizer o que pensava. Meus lábios se abriam e minha voz saía estridente irritando os meus próprios ouvidos. Me deparei com o vazio e minha própria solidão. Minha face em fronte ao espelho estava sem reflexo. Eu quis sair de dentro de mim mas estava escondida atrás da minha sombra. Resolvi cortar meus pulsos, mas eles não existiam, por isso para chamar a atenção necessária virei uma tricotilomaniaca, passei a me comportar feito uma porca, comia o feijão do prato com as mãos, ofendia as pessoas com assuntos levemente pesados e carregados de orgulho, soberba. Eu julgo um livro pela capa, porque isso é a primeira coisa que eu posso fazer, aliás quem não é que faz? Um dia minha atitude porcamente inútil, minha inteligencia sutil e desprezível, e tudo aquilo que eu fazia para meu auto-destruir não era mais suficiente. Se eu peido no meio das pessoas e como meus excrementos não é mais para chamar atenção. Só pode ser porque estou perdendo aos poucos minha conexão com este mundo, porque estou me tornando um ser invisível aos meus próprios olhos, porque tudo o que eu falo só pode ser vítima da paciência dos outros. Fiquei esperando um bofetão na cara. E então eu descobri: Esta não sou eu. Esta é você. E por que isso me irrita tanto? Lamento tanto por não suportar falta de higiene.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Eu não sou você

Seus porcos sexistas e machistas: eu não sou ele porque sou muito melhor que um monte de escarro! Vocês são desprezíveis e suas atitudes me enojam! Vocês deveriam parar de agir feito pseudo-intelectuais que falam de livros que nunca leram e realmente fazer algo inteligente como viver a própria vida. Falar dos outros é afundar-se em escuridão. Sejam mais criativos da próxima vez que tentarem me destruir por pensamentos e mais ainda quando ousarem pronunciar meu santo nome.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

os limites do rodapé

Eu sentia vergonha de minha memória. Deveria admitir que estava enganado? Eu não estava, apenas confundi a ordem dos fatos. E o modo pelo qual vemos o passado hoje é uma espécie de indulgência que não consigo tolerar. Felizmente ou não, hoje me orgulho pelo engano. Finalmente entendi o porquê de se ter uma língua entre os dentes. O teatro grego se fazia por meio de diálogos, um sistema que se aperfeiçoou com a peripatética (algo como conversar coisas difíceis enquanto se caminha e se gasta as sandálias). O diálogo de Sócrates mostrava que ele sabia usar as armas daqueles que ele criticava, os Sofistas (algo como falar e falar e convencer sem ter pé na realidade. Beber leite de soja e acreditar que é de vaca, algo assim). Pois é. Filosofia, eu gosto muito disso. Pena que fui ficando acadêmico e ignorante demais para entender as minúcias do conhecimento. Abracei-me à literatura e me vi seduzido pela ficção (se bem que hoje sei que tudo é ficção, mesmo a mais escarrada das realidades). Tentando te explicar o que de fato aconteceu há alguns anos, percebo a metáfora profunda entre o que você deixou escapar como sobras da fornicação e o que tantos deixam escapar como sobras de seus discursos. O realmente importante fica em si mesmo e só aquilo que não tem utilidade é desperdiçado.

Agora, cá entre nós, por mais controverso que pareça, Fiodóro é o meu gato. Desde quando passou a morar comigo, passou a me encarar como sendo seu progenitor. É engraçado isso. É natural que você tome como principal referência aqueles que sempre cuidaram de você, acreditando por extinto se tornar igual a eles um dia. Hoje, sou mais alto do que meus pais, compartilho de suas preocupações e tenho treinado muito o ato de se fazer um filho. Fiodóro não. E, muito provavelmente, ele jamais o consiga. Deve ser por isso que ele dorme tanto. Para tentar se distrair de sua própria condição. Mas um dia, quem sabe.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

desconforto consensual

Suzanne falava depressa e com uma voz hesitante. Olhava de lado, evitava encarar Marcelo. Uma grande lâmina escorria por sua face em forma de uma densa lágrima e um embrulho de palavras não entendidas e aquele papel jornal que lhe cortava o estômago. Era mais do que evidente que Suzanne havia preparado uma armadilha, submetida às instruções dos inimigos de Marcelo, como se quisesse convencê-lo de algo. Era o que Marcelo pensava. Em sua garganta, uma praga espinhosa crescia, um besouro escalava seus pulmões com patas ásperas. Estava equivocado. Ninguém havia influenciado Suzanne, a esta altura ninguém mais se importava. Era tarde demais. Suzanne apenas sentia um desejo vago e confuso de tentar ajudá-lo de alguma forma. Tudo era incômodo e ruído para ambos. Não havia mel em suas palavras, não havia bálsamo em seus olhos. A intranqüilidade arrepiava todos os pelos do corpo e manchava seus rostos de vermelho, improváveis cicatrizes de insônia. Sim, ela continuava a falar depressa e não lhe fitava os olhos. Porém Suzanne não portava armadilha alguma, agia assim apenas por permanecer de mãos vazias. Uma mulher trêmula, vestida de branco com grandes correntes nos pés e miríades de vãs esperanças nos olhos movimentando-se desordenadas como formigas. Quando ela o abandonou, Marcelo só pensava em uma coisa: provar que querer é um sentimento superior a todos os outros. E repetia para si mesmo essa prerrogativa, sem pressa, pausadamente, como se visasse um alvo que não queria errar. Suzanne adiantava-se em não discordar, prenha de medo. Bem no fundo acreditava, mais no fundo duvidava, mas não se detinha. Não estavam dispostos a esperar mais pela revelação do que viria. Aquilo que um dia foi discórdia era apenas um pretexto, uma alegoria, uma parábola de um amor inacabado. E assim continuaram a caminhar levando todos os receios e esperanças até que o destino os alcançasse.