Estou aqui, escrevendo para você no meu quarto novo, que abriga tantas lembranças que jamais saberemos, como se um dia aprisionasse também as nossas. E lá se vão cinco ou dez anos, que diferença faz? É bom estar aqui. Com esta gente nova. Sinto-me protegido, coisa estranha. Carine está tão bonita. E batchan, que tem uma idade já misteriosa, ainda não parece quase me desconhecer. Não consigo mais dormir, penso em todo mundo e tudo que está para acontecer. Estou te escrevendo porque estou quase conseguindo tirar você da cabeça. E não sei se já estou preparado para esquecer você. Antes disso, quero te contar umas coisas. Mesmo que a gente não se veja mais.
Desculpe por tudo, fui hostil enfim. Não com você, mas comigo mesmo. Teria te telefonado e você acabaria escutando, chorando e desligando na minha cara. Desagradável isso, deveras inconveniente. Não é nada contigo. Ou quase nada. O fato é que estamos morrendo e todas as noites eu visito o inferno para ver se ainda há lugar para nós. Não tenho mais paciência para os medos humanos, essa coisa travada, rejeição forçada, jogos de poder. Difícil explicar. Muitos cacos de vidro dentro das pessoas. Vejo farpas em sua garganta. Uma pressa, uma urgência para tudo e uma obsessão de arruinar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Morrer antes de nascer. Sim, continuo mentindo para mim mesmo, a vida é mais fácil assim. Sem loucuras, sem sofrimentos, como uma história que já vem pronta e pessoas que vão substituindo as antigas. Para evitar o tédio, esporadicamente tenho o cuidado de ferir a mim mesmo, sem nunca saber se estou ferindo também outra pessoa. Sinceramente, não queria ter feito mal a você. Não queria que você chorasse. A mentira tem essa desvantagem, nem sempre dá pra controlá-la.
Escrevo-te com um cigarro aceso e um copo de coca-cola. E você ainda não me conhece, estou tentando, por absoluta necessidade, inventar você. Talvez eu continue sem dormir depois disso, mas ainda há esperança. Nesta doentia tentativa de enfrentar a realidade, finjo que não fantasio. Mas fantasio. Até o último momento esperei que você me telefonasse. Que você tocasse a campainha. E assistisse comigo um filme antigo e dublado que passa de madrugada na globo. Falando assim, até parece ridículo. Mas até então, pelo contrário, é demasiado lindo e nostálgico. Infelizmente não me permiti, não te permiti, não nos permiti. A gravidade foi mais forte e não houve como fugir disso tudo, tão artificial, tão estudado. Assim é a vida, quem acaba sendo o personagem fictício sou eu. Sou péssimo ator, detesto ouvir minha voz dizendo aquilo que todos querem escutar, ou ver os tantos outros atores interagindo comigo. A calma, o equilíbrio, as palavras ditas lentamente, como se eu escolhesse. Raramente ocorre um gesto, um tom mais espontâneo. São tão bons atores que ninguém percebe minha péssima atuação.
Tudo bem, já passou. E quando eu digo tudo isso não estou subestimando você. Não sinto agressividade nenhuma em minhas palavras. Gosto de seus olhos, gosto da tua pessoa e sei que é difícil entender todas estas emoções contraditórias e confusas que habitam sua mente. Entenda que eu não obriguei ninguém a ler isso aqui, a internet é realmente fascinante, antes dela ninguém perdia tempo para ler algo que não quisesse ler. Hoje as pessoas vêm aqui ler coisas que sabem que não querem ler só pra encher o meu precioso saco. Acontece que eventualmente há uma necessidade indecifrável e neurótica de elaborar sofrimentos e rejeições e amarguras e pequenos melodramas cotidianos para depois sentar atormentado e solitário para escrever uma merda destas. Questiono-me até hoje sobre o real motivo disso mas nunca sei responder. Não sou isso que escrevo. Talvez eu até seja, quando me sinto estranho. Não sei viver ao vivo, só sei viver através de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O não-real, o não-palpável. Só não acho bonito que todos se dispersem assim, encontros, desencontros e nunca mais, tudo muito contemporâneo. Estou tentando ser honesto hoje. Uma possibilidade que eu precisava devorar ou destruir. Porque até hoje não consegui conquistar essa disciplina, essa hermenêutica dos sentimentos, essa frugalidade das emoções.
Estou apaixonado. Há tempos não ficava. Muito menos por uma namorada. O que tem me mantido vivo até hoje foi a ilusão ou a esperança dessa coisa, esta harmonia com outrem, o amor verdadeiro um dia. E de repente isso acontece, indubitavelmente, de uma vez por todas. Então a grande procura morre, destroçada, proibida, impedida e eu nem vivi nada ainda. Não que eu seja promíscuo, mas o romantismo é necessário e só é possível com a libido. Da minha sexualidade, dos filhos mortos, não ficou nada. Será que o amor é tão grave assim? Eu só não quero me tornar uma pessoa pesada, frustrada, amarga. Eu podia dizer que eu tive sorte na vida. Eu podia dizer que você teve azar. Eu podia contar a você dos meus últimos meses, escrevendo durante toda a madrugada, falando com quase ninguém. Pelo menos, contigo. Tudo isso, se eu te dissesse, talvez tivesse ajudado a doer menos em você. Mas eu não quero ter vergonha de nada que eu seja capaz de fazer você sentir. Tento não ficar assustado com a idéia que este tempo aqui é curto, e enfrento, e reconstituo os pedaços, tudo vai se ajeitando. Menos a morte. E de tudo isso, me ficaram coisas tão bonitas. Uma lembrança bonita de ti, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e ser novo de novo. Quando te falo da idade, quando te falo do tempo, quero dizer que não tivemos tempo e não quero mais suas emoções aprisionadas e os meus impulsos bloqueados. Neste sentido, somos espantosamente parecidos. Acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim - para não querer de maneira alguma ficar na sua memória, no seu coração, seu corpo, como uma sombra escura. Perdoe a minha precariedade e as minhas tentativas inábeis, desajeitadas, de te abraçar no escuro. Me queira bem. Estou te querendo muito bem neste breve instante. Tinha vontade que você estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas coisas, grandes, pequenas, e sem nenhuma importância.
Fique feliz e, sobretudo, queira ser feliz. Você é muito linda e eu tento te inventar com minhas melhores referências. Mesmo que eu não consiga, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você e para mim. Escrevo-te, enfim, apenas porque nem você nem eu somos descartáveis. Com cuidado, com grande carinho, um forte abraço e um delicado beijo. Quanto aos outros, mais um amanhã cinza de outubro.
