Suzanne falava depressa e com uma voz hesitante. Olhava de lado, evitava encarar Marcelo. Uma grande lâmina escorria por sua face em forma de uma densa lágrima e um embrulho de palavras não entendidas e aquele papel jornal que lhe cortava o estômago. Era mais do que evidente que Suzanne havia preparado uma armadilha, submetida às instruções dos inimigos de Marcelo, como se quisesse convencê-lo de algo. Era o que Marcelo pensava. Em sua garganta, uma praga espinhosa crescia, um besouro escalava seus pulmões com patas ásperas. Estava equivocado. Ninguém havia influenciado Suzanne, a esta altura ninguém mais se importava. Era tarde demais. Suzanne apenas sentia um desejo vago e confuso de tentar ajudá-lo de alguma forma. Tudo era incômodo e ruído para ambos. Não havia mel em suas palavras, não havia bálsamo em seus olhos. A intranqüilidade arrepiava todos os pelos do corpo e manchava seus rostos de vermelho, improváveis cicatrizes de insônia. Sim, ela continuava a falar depressa e não lhe fitava os olhos. Porém Suzanne não portava armadilha alguma, agia assim apenas por permanecer de mãos vazias. Uma mulher trêmula, vestida de branco com grandes correntes nos pés e miríades de vãs esperanças nos olhos movimentando-se desordenadas como formigas. Quando ela o abandonou, Marcelo só pensava em uma coisa: provar que querer é um sentimento superior a todos os outros. E repetia para si mesmo essa prerrogativa, sem pressa, pausadamente, como se visasse um alvo que não queria errar. Suzanne adiantava-se em não discordar, prenha de medo. Bem no fundo acreditava, mais no fundo duvidava, mas não se detinha. Não estavam dispostos a esperar mais pela revelação do que viria. Aquilo que um dia foi discórdia era apenas um pretexto, uma alegoria, uma parábola de um amor inacabado. E assim continuaram a caminhar levando todos os receios e esperanças até que o destino os alcançasse.

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