Há tempos me enviaste a versão digital de um livro tcheco e enalteceste-o com única ordem entusiasta: Leia. Apesar de nobre opinião e da reputação que precede o romance, confesso que descarreguei o arquivo para esquecê-lo entre tantos na pasta virtual Ler Urgente e só tive acesso à tal literatura quando surpreendido por um breve episódio do acaso. Portanto hoje, quando Tereza descobriu que estava com Tomas na última parada, mas que estavam juntos, senti a necessidade de tornar inteligível de que modo o casal supracitado invadiu meus pensamentos.
Entrei com meu par no café, descemos as escadas, cumprimentamos três bons amigos e nos sentamos próximos deles, num sofá. Voltaste do exílio? Perguntou-me o primeiro. Ainda não, volto no dia quatro de julho. O segundo se levantou, abraçou-me calorosamente e disse: Fico feliz em saber.
A sagacidade das boas vindas me trouxe para casa uma vez mais. E tem sido tantos os lares em que moro de uma só vez, meu amigo. Por vezes encontro a recíproca afeição para noutras conviver com o cúmplice silêncio dos desconhecidos.
Aproximou-se de mim um estranho. Recebeste uma mensagem, anunciou com voz grave, porém suave, e sorriu. Vi nas pontas dos dedos do braço estendido um guardanapo. Agradeci balbuciando e imaginei ter despertado o interesse de outro homem, enquanto, como depois fui saber, a formosa dama que comigo estava corria os olhos à procura daquela que me queria. Enganamo-nos por doce preconceito. Ao meu lado, em pé, uma balzaquiana proferia enleada: Não posso sair daqui sem te dar um abraço. Procurei aprovação no olhar da minha companheira e respondi: claro.
Sentado, eu fitava o bilhete, sem ler. Acordou-me do transe o imperativo do terceiro amigo: Leia!
Não sou daqui, o que está ao meu redor não me pertence. É exatamente assim que me sinto. Isolo-me de tudo e de todos e crio meu próprio mundo, onde a minha realidade é o que acredito.
É como se esse país fosse pouco para mim. Quero sair, libertar-me, vivenciar a cultura do lugar de onde vim. Sonho com a Inglaterra, respiro o ar londrino e me sinto bem.
Não sei ao certo que decisão tomar, mas o que eu decidir com certeza será o certo!
Que "insustentável leveza do ser"! Que inóspito!
Não havia assinatura, apenas a data: último dia do mês de maio. Vá atrás dela! Fale com ela! Mas ela já havia partido. A garçonete não a conhecia, nem o rapaz do balcão. Quando retornei ao sofá, minha namorada segurava um exemplar de bolso traduzido para o português por uma Teresa e, naquela mesma noite, Tomas descobriu que foram necessários seis acasos para ser conduzido até Tereza enquanto eu viajava num ônibus de volta para o oeste.
Penso bastante em ti e pergunto: Es muβ sein? Tu respondes: Muβ es sein! Ja, ja, ja! E eu me preocupo. Porém, já não tenho a convicção de Tomas para considerar idiota tua missão, com a qual a minha se confunde.
Forte abraço,
Matheus
P.S Não há como esquecer o pequeno léxico das palavras incompreendidas, as observações tardias de Sabina sobre suas diferenças com Franz. Vestir teus óculos até entender que os cemitérios da minha alma podem não ser os mesmos que na tua habitam.

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