(um ready-made de Vicente Pessoa)
“As notas de uma realidade jamais podem ser levadas como referência.
Evidentemente, escrever não é uma tarefa fácil, pois se trata antes de qualquer coisa de uma confissão pública da própria insignificância. Se há alguma beleza neste ato, está apenas nos olhos de quem escreve na essência do verbo ser, no sentido de sentir-se existente.
O outro pode ser simplesmente uma cópia de outra pessoa como também um “ready-made” do que restou na memória. Todos nós sentimos as mesmas coisas, mas interpretamos de maneiras diferentes, mesmo que expressadas de maneira igual ou semelhante. Em suma, todo eu é igual ao outro, mas todo outro é sempre único e faz de cada eu uma nova percepção.
E o tempo assim se perde numa tarde cinza de um dia inerte como poeira e mofo fingindo ser confete no ar e a hora nem se mexe enquanto os ponteiros tecem a desordem cronológica do caos, que o leitor chama de mundo.
Contar novas verdades todo o tempo? Mentira.
Criar o novo o tempo inteiro? Privada.
Daí nasço. Cresço. Ou o mundo encolhe.
E logo me casam contrariada. E viro Madame Ismo. Sobrenome comum de homens comuns. E passo a atender por “ismos”, publico manifestos, levanto bandeiras negras, depois vermelhas, e brancas, e negras again.
De fato, a visão romântica do artista como pensador e detentor de um posicionamento crítico é uma antiga piada. Tão velha quanto o “novo".
Acima de tudo, sou pó. Suspensa no ar, sou pó. Igual a você, sou pó.
Sim, estou tentando fazer um filho com você. Agora. Só tenha em mente que eu não sou nada, nunca serei nada e não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os filhos do mundo.
Embora você tenha acabado de me conhecer, eu te conheço a muito tempo. Um conselho: tome cuidado com aqueles que dizem conhecer, a muito tempo, algo ou alguém. As palavras, quando repetidas dez mil vezes, tornam-se coisas. Por isso as pessoas oram.
O medo e a culpa sempre estarão te vigiando, mas ninguém se importa com isso mais do que você. Ao invés de criar, recriar. Criança, você só aprende a falar imitando os outros. Daí você aprende que questionar a verdade é fácil, o difícil é articular a mentira. E construir uma mentira cada vez mais complexa ou simples o suficiente para se tornar uma nova verdade.
Eu namoraria contigo mais um tempo, mas você ainda pode se esconder. Caso ainda queira me encontrar, comece registrando de alguma forma fatos sem nenhuma importância, por exemplo "ontem eu dormi sem meias e sonhei que estava voando". Escute músicas de amor, de preferência as de um amor que deu certo. Não é preciso estar apaixonado: apenas cante junto e finja que está. Faça uma lista das suas preferidas e atualize quinzenalmente.
Altere o sentido de algumas frases, de modo que elas acabem parecendo um pouco inusitadas. Um exemplo simples: onde você escreveu "viajei em uma estrada cheia de lírios", escreva "Passei o dia tentando acompanhar os lírios, mas eles sempre iam para o outro lado".
Faça uma lista dos melhores momentos da sua vida. Demore-se bastante em cada um, procurando identificar as sensações que eles despertam. Lembre-se de que viver o presente não tem nada a ver com não regar flores de ontem.
Não deixe a sua arte se viciar em um estilo. Quando achar que a ternura está virando melancolia, que as imagens vão ficando exageradamente coloridas ou que as declarações de amor começam a implicar com os defeitos do outro, tente escrever sobre alguma coisa que nunca antes havia passado pela sua cabeça. Mas também não se vicie em evitar os vícios.
Prefira os lápis e tenha coragem. Ao contrário do que se imagina, inventar o novo exige boa dose de fraquezas.
Acima de tudo, entenda que o presente é por essência apenas uma admiração sem surpresas ou expectativas. O problema sempre foi as possibilidades.
Sou aquela que erra.
Nada de novo: as grandes coisas para os grandes, os abismos para os profundos, as branduras e os tremores para os sutis e, em resumo, as raridades para os raros.
Este manifesto é um manifesto. Se leu, problema é seu.”

1 comentário
bem meu.
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